William

Fernandes

Escritor, Dramaturgo, Músico e Psicanalista

Teatro no ambiente escolar, tem que ser ruim? Primeiramente, vamos lembrar de como se referem ao teatro no ambiente escolar. “Teatrinho”, “pecinha”, “encenação”. Esses são alguns nomes que dão ao teatro na escola ou ao acontecimento teatral dentro dela. Parece uma forma meiga de desmerecer o teatro na escola.

UMA TRAGÉDIA

Antes de mais nada, afirmo que sei que há casos extraordinários. Em outras palavras, sei que existem escolas, quase sempre particulares, que levam esse acontecimento com a devida seriedade. Porém, esse artigo não trata dessas exceções. Assim como não trata de instrutores e professores que são ótimos diretores de teatro, autores e pedagogos do teatro; em suma, pessoas que entendem a importância do teatro, tanto como disciplina, assim como arte.

Porque todos expressam seu amor pelas artes e, no entanto, é precisamente o teatro no ambiente escolar que é feito nas coxas?

Trabalhei por seis anos com teatro no ambiente escolar, portanto, falo com experiência. O que mais vi foram professores validando vícios televisivos. Ora usando os alunos para recriarem seus programas de auditório favoritos, assim como personagens de novela, ora embaraçosas exposições ao som do chamado “funk”.

O teatro, assim como a filosofia, é parte da formação do ser humano desde a constituição das primeiras civilizações.

Foto: University of Music and Performing Arts Munich: Study in Bavaria – Alemanha

Teatro como Disciplina Curricular

Até por volta de 2005 não havia clareza sobre os fins e a importância das artes como disciplina. Como resultado disso, qualquer professor com “jeitinho” para coisa poderia dar aula dede artes. “Ninguém põe o filho na escola pra ele virar artista“, já ouvi muitos professores e administradores de escola pregarem. O objetivo era justificar o descaso com o ensino das artes. Contudo, nunca dizem: “Ninguém põe o filho na escola para virar atleta“. Dessa forma, estariam promovendo o mesmo descaso com a educação física ou práticas esportivas. 

Uma Conquista Passageira

Posteriormente, ou seja, após 2005, as artes passaram a ser exigidas no currículo escolar. Ao mesmo tempo, somente pedagogos com formação específica na devida área poderia lecionar artes em sala de aula. Uma das primeiras medidas do Governo que assumiu o posto em 2013, foi destruir esse avanço. Os motivos dessa ignorância na educação é histórica e, ao mesmo tempo, atual, mas não cabe aqui. O que podemos verificar, ainda assim, é que ela vem formando uma nação deficiente, com dificuldade de subjetivação, com fraqueza de argumentos e, portanto, violenta.

É Proibido Refletir

O teatro, a exemplo da filosofia, vem sendo parte da formação do ser humano desde a constituição das primeiras civilizações. Não praticamos esporte para nos tornamos atletas, mas o fazemos pois é saudável e precisamos dessa saúde pessoal. Essa saúde individual possibilita a formação de uma sociedade, da mesma forma, saudável. De maneira idêntica, países que incluem canto, teatro, artes plásticas e dança com seriedade na grade curricular, não o fazem para formar artistas. É uma tentativa de reforçar valores subjetivos e, consequentemente, promover uma sociedade que possa interagir uns com os outros de forma sensível, ética, ou seja, com civilidade.


“Ninguém põe o filho na escola pra ele virar artista”, já ouvi muitos professores e administradores de escola pregarem. O objetivo era justificar o descaso com o ensino das artes. Contudo, nunca dizem: “Ninguém põe o filho na escola para virar atleta”. Dessa forma, estariam promovendo o mesmo descaso com a educação física ou práticas esportivas.   


Teatro como Expressão Artística

Muitas vezes, os administradores escolares assumem seus postos, trazendo eles mesmos essa noção equivocada do ensino das artes. Sendo assim, quando o teatro acontece, ele é marginal. Portanto, uma aventura arriscada tanto para os alunos quanto para os docentes. Por esse ponto de vista, se ele não for útil, ele é apenas uma distração do que é importante. Importante, nesse caso, seira passar nas provas e no vestibular. É obvio que quando ele não é respeitado como disciplina, será desrespeitado, também, como expressão..

Copiam o que Falam, mas não entendem porque Falam

Um aluno médio europeu ou estadunidense chega ao fim do curso médio tendo estudado com profundidade ao menos um segmento das artes. Aqueles que optarem pelo teatro, terão estudado a importância deste na formação do ser humano. Terão, também, montado, ao menos, duas ou três peças de dramaturgos referenciados: Shakespeare, Ibsen, Tchekow, por exemplo.

Por outro lado, o aluno médio brasileiro não goza desse privilégio. Ao contrário, pode passar toda a vida estudantil (ou a vida inteira), sem nunca ter esbarrado num desses conhecimentos ou expressões. Quando acontece, muitas das vezes, foi graças ao professor idealista. Este, quase sempre, se vê obrigado a escrever, ele mesmo, um texto e a dirigir sem nenhum preparo. O resultado é com pouca ou nenhum qualidade. Esse fato recorrente, valida a opinião dos que criticam a inclusão do teatro no ambiente escolar.

Talvez fosse tempo de parar de repetir desnecessários termos em inglês, feito papagaios. Ao invés disso, buscar saber o que é que deixa essas culturas tão atraentes.


Foto: Alunos da Escola de Ensino Médio Kennesaw Mountain em montagem de Shakespeare.

Imagem: San Juan Hills High School Theatre Arts

COMO RESOLVER ?

Se certas pessoas precisam de tiranos governantes para os impedirem o livre fazer. O mesmo não acontece, necessariamente, com os que não precisam dessa tirania.

Ora, se você é professor ou instrutor e deseja incluir o teatro na formação do seu grupo, faça direito. Não precisa de leis que te obriguem a isso. Não precisa, da mesma forma, do descaso dos líderes ignorantes para lhe liberarem dessa possibilidade. Aprenda! Não culpe o sistema. Hoje há bem pouco conhecimento que não possa ser adquirido à distância.

A ABORDAGEM CERTA

Decida que abordagem dará.

Se abordar como disciplina, vai lidar com a pedagogia do teatro. Nessa caso, não terá como foco a montagem de espetáculos, mas, sim, sua aplicação para a vida (lembra do esporte?). Em síntese, isso incluirá: o jogo dramático, o jogo cênico e experimentos criativos. Essa é função do pedagogo e se consegue, por tanto, estudando Licenciatura em Teatro.

Por outro lado, você pode abordá-lo como uma expressão. Você irá, consequentemente, montar espetáculos com os alunos. Nessa caso, aprenda as etapas e procedimentos de uma montagem. Para montar seus próprio textos, estude dramaturgia e torne-se um autor de teatro.

Por fim, não ache que sua criatividade e sua paixão serão suficientes para fazer a coisa dar certo, pois nunca dá certo.

Imagem: Alunos da Escola de Ensino Médio de Guilford – Produção de Anything Goes – High School Theater Art cast members rehearse for their upcoming production of Anything Goes. (Photo by Kelley Fryer/The Courier )

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Imagem: Benjamin Lillie e Katrin Wichmann

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