Se você é autor iniciante, pode fazer bom uso dessas dicas. Vai entender que diferente da literatura, o texto teatral se concretiza na montagem, não no papel. Ao observar sua obra  montada, o autor pode encontrar diversas falhas, no entanto, tarde demais. As 4 dicas para o autor iniciante que apresento aqui, buscam fortalecer a visão antecipada da montagem, ao mesmo tempo em que alerta para alguns erros comuns que podem facilmente ser evitados.

I –  Simplifique a Ideia Original

Como já sabemos, a peça inicia com uma ideia (Leia Como Começo a Escrever uma Peça Teatral ou se aprofunde nessa arte fazendo o  curso Redação de Textos Teatrais). Comece simplificando sua ideia. Siga simplificando a história, personagens e, por fim, os diálogos.

Raramente o autor iniciante erra por ter sido simples; os textos são considerados ruins, pois são excessivos, muito complexos, com diálogos desnecessários, personagens sem importância ou lotados de trilhas musicais

Denise Stoklos desenvolveu o Teatro Essencial. O maior exemplo que o simples não pode ser magnifico. Texto sobre o Teatro  Essencial disponível em Acervo.

e figurinos. Veja abaixo um exemplo de como exercitar sua  criação objetiva.

Imagine um autor criativo com a seguinte ideia para uma peça:

10 funcionários de um banco  são feitos reféns durante um assalto. Quando a polícia cerca o banco e impede a fuga dos 4 assaltantes, todos se vêm presos. Os funcionários temem por suas vidas, pois notam que os 12 policiais estão mais interessados em capturar os assaltantes do que proteger os reféns. Os assaltantes brigam entre si e acabam tendo suas vidas avaliadas pelos reféns  que passam a dar opiniões e tomar partido. Os reféns, por sua vez, também refletem sobre suas vidas, suas escolhas e o que os levaram até aquela situação. Lá fora, os policiais discutem entre si, pois não estão certos sobre o que fazer, e passam também a expor suas questões sobre hierarquia profissional e dúvidas pessoais. Com a invasão dos policias ao banco, há muita violência e já não há mais assaltantes, policias ou reféns; estão todos raivosos e violentos.

Essa ideia, que criei para esse artigo,  está excessiva. Certamente vai gerar uma história com tantos elementos que, ainda que consiga ser desenvolvida por um autor leigo, terá muita dificuldade de ser montada. Ela tem no mínimo 26 personagens, 3 núcleos dramáticos complexos e 3 espaços dramáticos.

Vou usar essa ideia para mostrar como fazer  quando se deparar com uma explosão criativa, que precisa ser domada.

Dividi minha ideia em 3 novas ideias. Cada ideia pode gerar uma peça independente.

Ideia 1

Comédia – Local: Sala do Gerente do Banco – Personagens: Dois funcionários, um assaltante.

Enquanto uma funcionária   discute com seu gerente, por conta de um aumento que ele se nega a dar a ela, o banco é invadido por um assaltante. Todos são postos para fora, mas o assaltante  mantém estes dois como reféns, pois a polícia cerca todo o prédio. Irritada com o  chefe, a funcionária se torna pouco colaborativa, colocando a vida dele em risco.

Ideia 2

Drama – Local: Recepção do Banco – Personagens: Dois assaltantes e Policial (em Off)

Dois irmãos, num momento de desespero, assaltam um banco. Depois de prenderem todos os reféns no banheiro, notam que não podem fugir, pois o prédio está cercado por policias. Iniciam a negociação com os policiais. Além de tentarem mostra-se perigosos, enquanto de fato são dois homens comuns e nada violentos, entram em conflito  entre si, pois se deparam com questões éticas e morais.

Ideia 3

Comédia – Local: Viatura da Polícia – Personagens: Dois polícias e um Assaltante.

Dois policias prendem um assaltante de banco em flagrante. Enquanto aguardam a chega da perícia, mantém o jovem assaltante dentro da viatura. Durante esse tempo, o policias discutem sobre um problema pessoal qualquer, e recebem conselhos do assaltante. Ficam satisfeitos com a interferência, desenvolvem uma simpatia por ele e passam a questionar se devem deixa-lo escapar.

Notou? Fiz três ideias de peças sobre três grupos: Uma sobre  funcionário que são assaltados, outra sobre assaltantes e, por fim, uma sobre policias.

II –  Escolha Apenas um Protagonista 

Sir. Ian McKellen and Patrick Stewart em Esperando Godot. Texto disponível em Acervo.

Novamente, essas dicas  não lhe serão muito úteis se você não tiver lido O que é Texto Dramático ou Como Começo a Escrever uma Peça Teatral. Se você já leu, você sabe que o texto dramático conta uma história através de diálogos. Antes de desenvolvermos os diálogos da peça que queremos criar, precisamos ter uma história. O autor iniciante adora histórias cheias de viradas, surpresas e impactos; bem ao contrário do que fez os autores das mais  importantes obras teatrais, como Edward Albee em Quem Tem medo de Virgínia Wolf, Beckt em Esperando Godot e Machado de Assis em O Caminho da Porta, só para citar alguns exemplos. Todas essas obras e muitas outras, você encontra aqui nesse site, em Acervo.

Um bom protagonista não é um personagem correto, bom, ético ou intediantemente agradável. Esse é personagem da Marvel.  O protagonista  por quem todos nos interessamos, é aquele que, claramente, leva a história (a ação dramática) para frente, em direção à um objetivo, um Querer, mesmo que num dado momento nos pareça imoral. Por isso, para o autor iniciante, é muito importante exercitar a escrita com personagens que sabem o que querem, pois o querer é a força e a direção da ação dramática. Quando mais experiente, você poderá criar protagonistas com desejos reprimidos, quereres não manifestados ou não compreendidos por ele  mesmo.

Para a Ideia 1  podemos criar um protagonista assim:

Maria quer muito mudar sua vida, radicalmente. Quer mudar de cidade e de carreira, mas para isso, precisa ganhar mais dinheiro. Está disposta a tudo e não se prende à emoções nem aos protocolos sociais. É determinada e não perde uma boa oportunidade para conseguir o que quer.

III – Escolha um Antagonista

Imelda Staunton (Martha), Conleth Hill (George) – Quem Tem Medo de Virgia Wolf.                                       Texto disponível em Acervo.

 

O autor iniciante pode achar que o antagonista é um vilão. Esse vício infantilizado, presente nas telenovelas e filmes de super heróis, é uma receita boa para manter a plateia atenta a uma história ruim.

De forma rudimentar, podemos dizer que um bom antagonista é aquele que dificulta ou impede o Querer do protagonista. Pode ser um ser humano, pode ser um elemento da  natureza e, nada incomum, pode ser parte do próprio protagonista (um ideia, uma limitação, um medo).

Para o autor iniciante eu sugiro criar um antagonista humano e que não esteja no próprio pessoa do protagonista. Acredite, no momento de desenvolver a peça, verá que, mesmo com esses dois personagens bem distintos, você já terá bastante com o que lidar.

Ainda na Ideia 1, podemos criar um antagonista assim:

O gerente do banco, secretamente apaixonado por Maria, vem sempre negando-lhe o aumento, pois sabe dos seus planos de sair da cidade. Deseja mante-la perto dele, trabalhando no banco, único local onde consegue esvaziar, parcialmente, a tenção de sua paixão platônica.

 

IV – Redija uma História Curta

 

Os elementos essenciais nessa história são: respeitar as escolhas feitas na descrição da ideia (local e personagens), deixar o protagonista liderar (narrativa do ponto de vista dele), descreva o conflito (ponto máximo do confronto entre protagonista e antagonista) e crie uma resolução. Resumindo:

1 – Local e personagens da ideia;

2 – História do ponto de vista do protagonista;

3 – Leve tudo para um conflito entre o protagonista e antagonista;

4 – Resolva.

Essa resolução pode ou não ser favorável ao protagonista. Lembre que, protagonista frustrado é quase sempre garantia de plateia frustrada, por isso, para esse momento inicial, sugiro uma resolução favorável a ele. Com mais experiência você poderá encontrar resoluções sem “final feliz” e ainda assim, não frutrar a plateia.

História para Ideia 1

Maria vem a meses reclamando um aumento que nunca recebe. Na manhã em que a história se passa, ela está em plena discussão com o seu gerente, Sr. Agenor. Agenor, um homem pacato e de modos tímidos, tem lá também suas resoluções. Uma delas é manter Maria bem perto dele, pois não é de agora que ele nutre uma paixão secreta e intensa pela saliente funcionária. Sabendo que os planos objeto do sua paixão é juntar dinheiro para sair da cidade, ele está disposto a impedir.

Depois de ouvirem gritos, muito tumulto e ruídos de coisas sendo quebrada, a sala deles é invadida por um assaltante. Inexperiente, deixou os clientes fugirem. Enquanto coage o gerente a abrir o cofre,  o banco já está sendo cercado por policiais.

O banco tem dois cofres. Um com todo o dinheiro e um, para casos de assalto, apenas com um pequeno valor. O gerente e Maria entram numa guerra de nervos, pois Maria insinua, primeiramente, que “parece tão pouco dinheiro, nesse cofre”, causando suspeitas no assaltante, que já está bem descontrolado. Maria  quer do Gerente  a garantia que terá mais dinheiro para ela, se ela colaborar, ou, revela ao assaltante a existência do cofre verdadeiro. O gerente relutantemente aceita.

Com a pressão dos policias do lado de fora, o gerente consegue convencer o assaltante a se entregar, pois não há como sair, e eles não ligam para as vidas dos dois funcionários. Dado por vencido, o gerente deixa  escapar sua paixão por Maria e seus planos de mante-la ali no banco pra sempre.

Os polícia estão entrado. Maria revela o cofre, pega o dinheiro, mostra uma saída secreta,  com a promessa de que o assaltante a leve com ele. E leva.

 

Agora é a Sua Vez

 

A diferença entre milhares de pessoas que têm ideias para livros  e peças e um escritor, é que o escritor está sempre escrevendo.

Use as dicas acima e escreva a sua história. Pode usar a Ideia 2 e 3. No próximo artigo você encontrará instruções sobre como transformar sua história em peça teatral.

 

 

 

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