Teatrinho, pecinha, encenação são alguns nomes que dão ao teatro na escola ou ao acontecimento do teatro no ambiente escolar. Parece uma forma inconsciente de anunciar que coisa vai ser ruim.

Sei que há casos extraordinários. Existem  escolas, quase sempre particulares, que levam esse acontecimento com a devida seriedade, no entanto,  esse artigo não trata as exceções. Também não trata  de instrutores e professores que são ótimos diretores de teatro e autores; pessoas que  promovem o teatro na escola com seriedade e respeito.

De forma geral: por que todos amam o teatro, e por extensão coloco qualquer outra área das artes, mas é precisamente o teatro no ambiente escolar  que  é feito nas coxas?

Tendo eu mesmo trabalhado por seis anos com teatro no ambiente escolar, falo com experiência. O que mais vi foram: professores usando os alunos para recriarem cenas de seus emburrecedores programas de auditório favoritos, personagens de novela, medíocres recriações de cenas de  filmes da industria cinematográfica estrangeira e embaraçosas exposições ao som do chamado  “funk”.

 

Teatro como Disciplina Curricular

Até por volta de 2005 qualquer professor da escola com “jeitinho” para coisa poderia dar aula de qualquer área e segmentos das artes. Não havia clareza sobre os fins e a importância das artes como disciplina. “Ninguém põe o filho na escola pra ele virar artista“, já ouvi muitos professores e administradores de escola pregarem. O objetivo era  justificar  o descaso com o ensino das artes. Mas não dizem “Ninguém põe o filho na escola para virar  atleta“, promovendo o mesmo descaso com a educação física ou práticas esportivas, por exemplo.  Depois de 2005, somente pedagogos com formação específica na devida área, poderia lecionar. Artes passaram a ser exigidas no currículo escolar.

Uma das primeiras medidas do Governo que entrou foi destruir esse avanço.

Os motivos dessa ignorância na educação é histórica e atual, mas não cabe aqui. O que podemos verificar, ainda assim, é que ela vem formando uma nação deficiente, com dificuldades de subjetivações, com fraqueza de argumentos em defesa de opiniões e, portanto, violenta.

O teatro, assim como a filosofia, o esporte e a música, só citando alguns exemplos, é parte da formação do ser humana desde a constituição das primeiras civilizações. Não praticamos esporte para nos tornamos atletas; o fazemos pois é saudável e precisamos dessa saúde pessoal e formarmos, dessa forma,  sociedades saudáveis. Países que incluem canto, teatro, artes plásticas e dança com seriedade na grade curricular, não o fazem para formar artistas. É uma tentativa de reforçar valores subjetivos, promovendo uma sociedade que  possa  interagir uns com os outros de forma sensível e  com respeito.

 

Teatro como Expressão Artística

Se os administradores escolares e professores já chegam às suas posições encontrando e vindo de um ambiente que ignora a importância da arte na formação do indivíduo, não encontrará, mesmo que se interesse, suporte e ferramentas necessárias para promover esses saberes aos alunos.

Quando o teatro acontece, ele é marginal, tanto para os alunos quanto para os docentes. Se ele não for útil para explicar uma disciplina considerada importante, celebração institucional ou campanha ele é apenas uma distração do que é necessário: passar nas provas, passar no vestibular.

É obvio que quando ele não é validado como disciplina, será marginalizado também como expressão.

Alunos da Escola de Ensino Médio Kennesaw Mountain em montagem de Shakespeare.

Um aluno comum Europeu ou Estadunidense chega ao fim do curso médio tendo estudado com profundidade ao menos um segmento das artes. Aqueles que optarem por artes cênicas e escolherem teatro, terão estudado a importância dele na formação do ser humano e terão montado ao menos duas ou três peças de dramaturgos referenciados: Shakespeare, Ibsen, Tchekow, por exemplo. O aluno médio brasileiro pode passar por toda a vida estudantil sem nunca ter esbarrado nesse conhecimento ou atividade.

Quando acontece, muitas das vezes, o professor, sem nenhum preparo e às pressas, escreve, ele mesmo, um texto , ele mesmo dirige e o resultado é a uma falta de qualidade que valida  a opinião dos que criticam sua inclusão na escola e a exposição dos alunos que confiaram na liderança.

Como resolver?

Se certas pessoas precisam de tiranos governantes para os impedirem o livre fazer; o mesmo não acontece, necessariamente, com os que não precisam dessa tirania. Ora, se você é professor ou instrutor e deseja incluir o teatro na formação do seu grupo,  faça direito. Não precisa de leis que te obriguem a isso, nem o descaso  dos líderes ignorantes lhe liberam dessa obrigação. Aprenda! Não culpe o sistema. Hoje há bem pouco conhecimento que não possa ser adquirido à distância.

Abordagem correta

Decida se quer tratar o teatro como disciplina. Se for, não terá como foco a montagem de espetáculos, mas sim o jogo dramático, o jogo cênico, experimentos criativos sempre coletivos e explicando sua importância na formação dos primeiros núcleos culturais da humanidade, na democracia, na transmissão de conhecimentos, na crítica aos vícios sociais, na compreensão do outro e de si mesmo.

Se decidir incluí-lo como uma expressão, ou seja, deseja montar um espetáculo, aprenda todos os elementos e procedimentos de uma montagem. Escolha um autor referenciado ou, se deseja escrever seu texto, estude e se torne um autor de teatro. Não ache que sua criatividade e sua paixão serão suficientes para fazer a coisa dar certo, pois nunca dá certo. Escolha um diretor, ou aprenda  o que é direção teatral e prepare seu elenco para uma experiência que sera importante para ele e para os que os assistirem.

Falta de recursos pode impedir que a produção seja cara, mas nunca impedirá que o teatro seja um acontecimento profundo e transformador.

 

Reparando Deficiências

Vamos imaginar uma nação formada por jovens e adultos que, por séculos, passaram por todos os estágios da educação sem nunca ter praticado esportes ou ter tido a educação física. É de assustar, não é verdade? A deficiência do corpo e mal estar físico seriam tão comuns  que nem seria tratado  como um problema em si, apenas seus resultados: muita doença. Privados das artes como parte da formação do indivíduo, estamos, sim, achando comum a deficiência ocasionada por essa falha e notamos apenas os resultados: violência, ansiedade e ausência de pensamento crítico.

O brasileiro tem uma estranha vocação à cópia dos Estados Unidos. Por que ao invés de copiar o pior, como o armamento e tentativa de queda  do Estado Laico, não copia seu sistema de ensino e passa a respeitar o teatro na escola? O resultado, provavelmente, seria: uma nação com autonomia sem necessidade de se reduzir a cópias.

 

Aprenda mais sobre esse tema. Visite a Biblioteca do Teatro

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