Música ou Teatro?

O Teatro musical vem arrastando multidões para as salas das grandes cidades, com suas grandes produções, quase sempre franquias estadunidenses ou inglesas. É um fenômeno comercial contemporâneo, mas suas origens são bem antigas, no entanto, no Brasil, é um dos segmentos das artes cênicas mais pobres. Tanto a produção   de material original (peça) é escassa  quanto são ruins a qualidade de seus registros.

O foco desse artigo é a relação do teatro musical e o autor de teatro, portanto não nos deteremos em dados históricos. Para isso leia o material disponível AQUI.

Entretanto, vale lembrar que o teatro musical contemporâneo  vem da mesma raiz de onde surgiu a ópera, portanto, embora mescle música, teatro e, à vezes, a dança, é da área  das artes cênicas e não da música. Talvez por isso se chame “Teatro Musical”  e não “Música Teatral”.

Por que Eles Cantam?

Essa é uma pergunta de resistência. Um questionamento sarcástico. Contudo essa pergunta  não é feita sobre cantor, seja lá  seu estilo, durante seu show ou concerto: “Por que ele tá cantando?”, ou “Por que a Betânia ao invés de cantar está declamando poesia do Fernando Pessoa?”. Não há estranheza no fato de uma pessoa falar e logo em seguida cantar sobre o que falou, desde que lá fora o letreiro tenha anunciado que viemos ouvir musica. Mas há quem resista à essa mesma forma de expressão artística, quando lhe disseram que aquilo  é um espetáculo de teatro.

Porque eles cantam ao invés de falar? A única resposta que consigo dar aos que me perguntam sobre meus próprios musicais é: “Não sei. Mas deve ser pelo mesmo motivo que os Rolling Stones preferem cantar e tocar  “I Can Get no Satisfaction” ao invés de falar essa frase uma centena de vezes na frente da plateia”.

Justificativas Teóricas

Certos teóricos tentam justificar a inclusão da música no teatro, em especial quando elas dão continuidade à ação dramática, ou seja, movem a história ou formam diálogos. Acho isso um desserviço à arte. Antes de buscar justificar o canto dos atores do teatro musical,  dever-se-ia, dessa maneira,  justificar porque o ser humano canta , em primeiro lugar.

Noto, contudo, que   na maioria das vezes essa resistência é de cunho ideológico. Uns por terem sido expostos, quando crianças, às produções em massa de filmes estadunidenses, que chegavam a ter mais de cinquenta porcento do tempo só em cancões, em inglês e quase sempre sem legenda. Tem os que se ressentem pela forma burguesa que ele se consolida atualmente e outros por o considerarem um “teatro menor”, sim, pois afinal o que precisamos é de mais críticos de arte, não é  verdade?

A Peça de Teatro Musical

Há quem chame qualquer espetáculo de teatro onde alguém canta de Teatro Musical. Com alergia à polêmicas, o que quero é apenas contribuir com os que desejam escrever uma peça de teatro musical, por isso  dou meu parecer contrário. 

Um diretor pode decidir convidar músicos e intercalar canções entre cenas de uma peça qualquer, como Hamlet ou O Noviço, no entanto ambas não são peças do Teatro Musical. Continuam sendo as obras originais, como criadas por seus autores. Incluir a presença de balabaristas e palhaços no palco durante a apresentação de “A Gaivota” não transformará   Ibsen em um autor de espetáculo circense. Para isso seria necessário uma nova criação com base na peça, na história ou nos personagens. Bons autores de teatro tiveram sucesso nessas criações: Maury Yeston criou o musical “Nine“, baseado nos personagens do filme “Fellinne 8 1/2” ; Stephen Sondheim  e Hugh Wheeler criaram o musical “Sweeney Todd”, baseado na peça homônima de Christopher Bond. Veja cerca de 125 peças do Teatro Musical que foram inspiradas em peças teatrais ou em seus personagens.

Chico Buarque – autor de Gota D`água, Os Saltimbancos, Ópera do Malando, Morte e Vida Severina e Roda Viva.
Cena da peca Ópera do Malandro. Direção de Luis Antonio Martinez

No Brasil, temos o genial Chico Buraque. Um de seus musicais mais conhecidos: ” Ópera do Malandro”, é inspirado em “A Ópera do Mendigo”, de John Gay, e em “A Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

A peça de teatro musical contém partituras para cantores e, quase sempre, para instrumentos. Quando não há habilidades para compor para instrumentos o autor pode usar tabulação de acordes acima da partitura com a linha da(s) voz(es).  À vezes contém  instruções claras sobre ocupação dos espaços  e coreografias, quando for o caso de incluir dança.

O Autor de Teatro Musical

Assim como o work in progress, a performance e o teatro pós-dramático  o Teatro Musical exige  de seus autores e encenadores domínio absoluto de técnicas bem especificas.  No Teatro Musical espera-se de seu autor , ou autores, conhecimento de música e dos atores formação em canto e, muitas vezes, dança.

O autor de Teatro Musical é um dramaturgo com uma trilha sonora na cabeça. Sons  que querem escapar do fundo da cena e se fazer a própria cena. Ele não tem a menor dúvida sobre onde e como as músicas se integrarão aos diálogos ou se formarão os diálogos. Também sabe que nenhuma música será ornamento ou interlúdio. Todas expressam os queres de seus personagens e movem a ação dramática a diante.

 

Aprenda mais sobre esse tema. Visite a Biblioteca do Teatro

 

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