No Teatro Dramático (contrapondo a noção de Teatro Pós-Dramático), um dos recursos recorrentes do Dramaturgo é falar do que não está lá. A razão é óbvia: quase nunca  podemos (ou devemos)  levar para o palco tudo o que compõe uma história.

Mas isso explica a solução de um problema e não um recurso. O conceito de presencial nas artes cênicas é bem mais abrangente o que um simples “falar para a plateia imaginar”, abrangência que não cabe nesse artigo. Contudo cabe as reflexões primárias sobre que está presente no acontecimento teatral.

O QUE NÃO TEM NOME NÃO EXISTE

A língua alemã tem nome para tudo. O que na maior parte das línguas ocidentais é explicado por uma frase, se pode encontrar uma palavra em alemão. A diferença entre ter um nome para algo ao invés de uma explicação adicional, é que o que ganha nome passa a existir independentemente . Assim como o aperfeiçoamento dos objetos vão criando novos nomes para eles, portanto também aperfeiçoando suas utilizações, são as subjetividades.

Para ilustrar: Chamamos de mentira tanto a atitude de difamar uma pessoa cruelmente, como o que médico faz quando busca dar esperança à família de um enfermo condenado ou quando agimos com cortesia e respeito, guardando nossas opiniões para nós mesmos. Chamamos de trabalho as coisas que fazemos e  para as quais somos pagos  por fazê-las, contudo não temos uma palavra própria para quando fazemos essas mesmas coisas (esses trabalhos?) e não recebemos por elas; no máximo incorporamos outra palavra: “trabalho voluntário”, que pode criar mais confusão ainda, sugerindo a involuntariedade do trabalho remunerado.

Não ter um nome para quando colocamos o respeito e sensibilidade  acima da verdadeira opinião (diremos que o médico mentiu) , ou para o que faz o compositor que não recebe por suas composições, não quer dizer que essas “coisas”, esses “significantes” não existam. Só precisam ganhar nome e ter seu próprio significado e possibilitar que essas “coisas” tenham vida própria e sejam propriamente tratadas.

 

O QUE ESTÁ PRESENTE NUM ACONTECIMENTO TEATRAL?

Será que o teatro precisa da presença física do ator?

Quando levantei essa questão num grupo de colegas, profissionais das artes cênicas, senti como se tivesse falado em legalização da canábis  durante o culto evangélico. Não teve por onde ir. A rejeição à ideia de que o teatro, o “Bom e velho teatro” sem um ator no palco causou pânico, falta de ar e rancor. Por que? A tal da palavra “presente”. Se eu tivesse dito: “Imagine uma peça onde a plateia não consiga ver os atores, nunca entenda exatamente onde a cena está acontecendo…”, certamente não teria sido hostilizado como, imagino eu,  foi o primeiro iluminador que disse: “Será que o teatro precisa das velas? Já tem eletricidade na cidade.”

Vamos pegar, para ilustrar, o tal “flashback“, que quer dizer “lampejo de memória”, no cinema. Eles são instrumentos, bem ou mal empregados, que explicam ou atualizam  a ação presente. Exemplo:

A personagem de 90 anos, sentada à janela, olhando para o seu jardim, agora morto e triste, tem um “lampejo” e se recorda de como foi feliz ali, no passado, quando era jovem e como aquele jardim já foi lindo. As imagens descreverão essa memória. Nós visualizaremos, como plateia, essa jovem e o lindo jardim.

No teatro, é bem provável que nem o jardim atual, velho e destruído, nem o da recordação ou nem mesmo a janela estejam no palco. Mas por meio do texto a plateia os “vê”. Por isso estão presentes.  A personagem, ou os personagens, falam sobre quem e o que não está no espaço cênico, não significando que não existam (estejam presentes) naquela historia.

 

O QUE EXISTE, O QUE É FÍSICO E O QUE ESTÁ PRESENTE

Esse é um erro comum dos dramaturgos iniciantes; o de supor que tudo o que existe na história precisa ser levado à cena, então se veem atordoados por dilemas que concernem a montagem.

Um dramaturgo que entende que o presencial no imaginário da plateia é uma prerrogativa do teatro, cria explorando esse recurso.

Está presente tudo aquilo que quem realiza o espetáculo  traz para o drama: seja pela presença física, seja pelo imaginário da plateia ou outros recursos tecnológicos.

Lars von Trier em seu “Dogville”, nos dá um bom exemplo de como o cinema pode lançar mão do que é próprio do teatro.

E A PRESENÇA DO ATOR?                                                         

Mais e mais a presença física do ator como centro essencial do drama tem sido questionada.

Sir. Ian McKellen and Patrick Stewart em Esperando Godot.

O que se questiona é: O drama se centra na presença física do ator ou na presença do ator? Porque se for centrada na fisicalidade, não há teatro de bonecos, de sombras nem cenas fora da visão da plateia. Vê? Não tem nome para o “tipo de presença” não física ou não percebida pela visão e audição.

O oposto dessa Presença poder ser uma outra coisa que não é a Ausência. Isso  acontece  com Godot (Esperando Godot, Teatro do Absurdo de Samuel Beckett).

Não acho que o debate leve o Dramaturgo ou Encenador a lugar algum. Isso é coisa dos teóricos. Leia os livros abaixo, crie, experimente e veja o que acontece.

Aprenda mais sobre esse tema. Visite a Biblioteca do Teatro

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