Essa é uma pergunta comum dos que iniciam atividades como ator.

Se você ainda não leu, seria importante dar uma olhadinha no artigo que escrevi “O que é uma Peça de Teatro“, pois ali fala sobre a função do Texto Dramático. Saiba que  “O Teatro Pós-dramático” e “A Exigente Técnica da Improvisação” mostram quando o improviso é uma técnica ou mesmo uma linguagem que compõe a criação e a realização do Espetáculo Teatral.

Atores iniciantes tendem a acreditar que a improvisação do texto é uma forma de trazer naturalidade e verdade à cena ou de solucionar alguma limitação.

Erro grave.

Essa vontade tem origem na dificuldade generalizada em ler, entender e memorizar textos. Querem adicionar suas palavras ao texto do dramaturgo quando não entendem a vida do personagem. Essa mania de atores amadores de buscar apoio em suas próprias  palavras é popularmente referida como o ato de  “colocar cacos no texto”. Você pode ler   mais sobre isso no artigo “O Que São os Cacos“.

Atores formam uma classe bem heterogênea, que abrange leitores estudiosos e outros , vamos dizer, menos interessados em estudos e pesquisas. Esses últimos querem logo ver os efeitos de suas criações diante de plateia, tal como seus astros favoritos, sem se darem conta de todo o processo de estudo e pesquisa que antecede e permeia  o trabalho do ator.

O  improviso é de fato uma técnica que se incorpora em diversas artes: música, dança, artes plásticas; No teatro, assim como nas demais artes, ela é parte de um Saber e não uma solução, um atalho ou um jeitinho. Técnica essa que é normalmente levada em forma de montagem teatral por uma equipe formada por dramaturgo, encenador e atores muito experientes , dedicados e, principalmente, detentores de um conhecimento específico dessa técnica bem exigente.

Por enquanto vamos ter que aceitar que quem dita a palavra é o dramaturgo e vou dar algumas justificativas que, você mesmo, quando se deparar com um ator amador questionador, pode utilizar.

 

A)  O Dramaturgo fala pelo personagem.

O dramaturgo, cuidadosamente, estudou a vida e o contexto de cada personagem que criou. Vamos dizer, um Lorde Alemão do século XVII. Já sabemos que será através da fala que a ação acontece: como ele fala, seu vocabulário e até o ritmo do conjunto de palavras numa numa frase foram escolhidas pelo autor dentre quais quer outras palavras  que poderiam estar ali. Isso tudo para dar voz à esse Lorde e suas intenções e desejos; em seu tempo e lugar.

Um ator, que tendo lido o texto, e que por entender o que ele supostamente  “quis dizer” e com isso decidir usar suas próprias palavras, forma e modos da fala, não faz mais do que uma mera micagem do que o personagem de fato seria; a plateia saberá, nesse caso,  muito mais sobre quem é o ator, suas próprias intenções e desejos do que sobre o personagem criado pelo dramaturgo.

O ator, assim como fez o dramaturgo, deve falar/viver pelo personagem.

B) A Tal Naturalidade

Tomando o cinema  como exemplo, sabemos que mesmo   que se busque e se julgue encontrar um tom natural para os diálogos dos atores, haverá sempre uma elaboração com um certo grau de artificialidade.

Primeiro porque, com raríssimas exceções, o filme ou espetáculo teatral é sempre uma síntese de um recorte da vida de um grupo  ou de uma pessoa. É síntese, pois como todos sabemos, um grupo pode ficar uma hora e meia batendo papo sem que nada de fato aconteça. Uma peça de teatro tem mais ou menos esse tempo para fazer “tudo” acontecer. Por isso as palavras são cuidadosamente escolhidas pelo dramaturgo a fim de manter a ação sempre constante e à diante. Não é assim que a vida acontece naturalmente.

Há o valor espetacular do teatro. Ele pode servir às pesquisas, à educação e ao entretenimento, mas antes de tudo ele é uma linguagem artística.  O grau de naturalidade que uma plateia pode esperar de uma história está quase sempre a serviço da credibilidade que ela busca ter dessa história e da vida desses personagens, nada além. Ou seja, parece  que falam por si próprios (os personagens) então me encanto com a espetacularidade, mesmo que falem em rimas.

Assim sendo, se o ator quer encontrar “a tal naturalidade”, não o fará menosprezando o trabalho do dramaturgo, mas sim o absorvendo em toda sua verdade. A verdade da obra dramática.

C) Há muito mais além do texto.

Para entender esse conceito seria bem interessante se você lesse o meu artigo “Como escrever Diálogos“, mas resumidamente é mais ou menos como segue.

Um bom dramaturgo entende que o discurso humano é uma intermediação do que se entende da fala e o que a fala tenta esconder, mas revela. Na primeira há uma interpretação dessas palavras por meio de seus significados mais ou menos precisos; na segunda o dramaturgo reconhece que há uma vida interna, secreta e muitas vezes desconhecida pela pessoa que fala, e pressionada de um lado  pela vida externa (a vida com outros. Importante ler o artigo “Para Quem fala o Monólogo?“)  e a busca de alívio das tensões da vida interna e inconsciente o que resulta é o discurso (sua fala).

Por isso, esse mestre das palavras e investigador da psique, que é o dramaturgo, colocou precisamente aquelas palavras para oferecer a plateia as mais emocionantes ou engraçadas facetas das relações humanas.

Leitura Recomendada

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